O aumento do preço do ouro, a taxa Selic elevada e o endividamento recorde das famílias impulsionaram a procura pelo penhor de joias na Caixa Econômica Federal. A modalidade de crédito com garantia registrou saldo de R$ 3,2 bilhões em 2025, alta de 31,24% em relação ao ano anterior, segundo a instituição.
A aposentada Clarice Almeida, 72, é um exemplo dessa tendência. Endividada com cartões de crédito, ela penhorou anéis, pulseiras e correntes na Caixa. “Eu estava cheia de dívidas, não conseguia pagar minhas contas. Penhorei e gostei também, o juro é bem mais baixo mesmo”, disse em ligação por vídeo.
No penhor, o cliente leva um bem de valor à agência, como joias ou relógios. Um especialista avalia a peça e o crédito pode chegar a 100% do valor, com dinheiro liberado na hora. Os juros são de 2,19% ao mês, em contratos de até seis meses renováveis. Os bens ficam guardados no cofre da Caixa até a quitação da dívida. Se não houver pagamento nem renovação, vão a leilão.
O ouro acumulou alta superior a 60% no último ano. Em janeiro, a cotação chegou a US$ 5.600 por onça. “Em reais, o ouro à vista chegou à máxima de R$ 900 por grama”, afirma Mauriciano Cavalcante, especialista da Ourominas. Depois, o preço caiu para US$ 4.712 por onça, mas a tendência ainda é de alta no curto prazo, segundo ele.
A valorização do metal começou no fim de 2022, com a Guerra da Ucrânia, e se intensificou em 2024 com a política comercial do presidente Donald Trump. O tarifaço abalou a confiança no dólar e nos títulos americanos, elevando o ouro a um novo patamar. Com joias mais valiosas, a procura pelo penhor aumentou.
“Como o ouro subiu bastante, muitos clientes passaram a ter um patrimônio parado nas gavetas”, diz Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos. Ele explica que o penhor permite acessar crédito rápido sem vender o ativo. A alta do ouro também permite pegar mais dinheiro com o mesmo bem como garantia.
Outro fator é o endividamento das famílias, que atingiu 80,4% da população, recorde da pesquisa da CNC. A inadimplência subiu para 29,6% das famílias endividadas, pressionada pela Selic de 14,75% ao ano. O penhor se torna uma alternativa mais barata que outras linhas de crédito.
O penhor não exige análise de crédito minuciosa, pois o bem dado como garantia é suficiente. “Ele acaba sendo uma porta de entrada para pessoas com nome negativado ou dificuldade de aprovação”, afirma Trotta. No entanto, isso também pode ser um sinal de endividamento fora do radar tradicional do sistema financeiro.
Comparado a outras linhas, o juro do penhor de 2,19% ao mês perde para o consignado público (2,11%) e o vinculado ao INSS (1,76%). Para servidores públicos, o consignado é vantajoso, segundo Marcos Praça, da ZERO Markets Brasil, pois a parcela sai direto do contracheque e o risco de inadimplência é baixo. Porém, não é possível renovar o contrato, diferentemente do penhor.
